Finalmente um dia de sol, embora o frio tenha-se feito mostrar. O que se previa um domingo fechado em casa a avaliar relatórios de forma pouco eficaz, tornou-se num simpático e diferente dia de trabalho. Após telefonema para dar uma volta até à Costa da Caparica, ficar sentado numa esplanada a beber qualquer coisa quente e pôr algum trabalho em dia, foi um desafio irrecusável. Costa da Caparica aí fomos nós: a minha companhia, colega de trabalho (fêmea) levava um chorrilho de revistas de decoração – e qual delas a melhor – eu lá levei uma pasta com três relatórios para avaliar…
Desafio: encontrar uma esplanada de praia que estivesse aberta…corremos as praias todas, na esperança de encontrar um espaço agradável para aí permanecermos. Tudo fechado!! As praias até tinham muita gente de passeio, mas as esplanadas todas fechadas!...que desperdício!
Aproximamo-nos da Praia da Bela Vista….sim essa!!!... Para nosso espanto, avistámos ao longe o parqueamento cheio! A minha amiga diz: “Esta tem de estar aberta, com tantos carros!...” Eu pensei cá para comigo “Burra!…não fazes mesmo ideia…”
Aproximámo-nos e para surpresa da minha colega – e não minha! – os carros tinham os seu ocupantes dentro, e vá se lá adivinhar….todos do sexo masculino…
Depressa senti aquele friozinho pela espinha, acompanhado da excitação, que já tinha esquecido, do engate…fiquei taquicárdico por estar ali. Recordei os tempos de loucura em que com um
amigo meu brincávamos com isso: corríamos os locais de engate todos, fingíamos que estávamos interessados e depois fugíamos. O fascínio pelo abismo levava-nos a esses locais, mas o medo de um futuro incerto excedia esse frenesim.
Portanto, nunca fui de engates fortuitos, mas conhecia os locais principais de engate e aquele claro que o conhecia, mas fazia anos que lá não punha os pés. Aliás, a última vez que fui à Praia 19, deve ter sido há uns cinco anos.
Ora estavam dentro dos carros, ora circulavam pelo estacionamento como quem não quer a coisa…Lembrei-me imediatamente do filme Cruising do William Friedkin com o Al Pacino, uma vez que havia um sujeito fora do carro, que nos fixou imediatamente, e que envergava um casaco e calças de cabedal – muito S&M – e ostentava um bigode tipo Big Bear, muito anos setenta…
Decidimos sair do carro, ao que ela diz “Olha isto tem um ambiente estranho, não tem?…” Claro que me fiz de desentendido e saí só para confirmar se a esplanada estava fechada, e estava. Regressei ao carro.
- “Vamos embora… só nos resta a Fonte da Telha!”
Lá fomos.
Passou-se uma tarde agradável, no meio de famílias com criancinhas aos gritos, gente sozinha acompanhada por livros, namorados adolescentes a trocar beijos entre lambidelas de gelados e a paisagem de um mar com alguns surfistas. Foi muito bom!
O Big Bear não me saiu da cabeça, não por uma atracão física, mas talvez pelo magnetismo do seu olhar.
O frio começou a sentir-se por volta das 17h00 e lá regressámos a nossas casas. Ela mais sapiente em decoração e eu, mais confuso nas minhas análises e avaliações…